terça-feira, 29 de junho de 2010

KARL MARX E A EDUCAÇÃO

Rudá Morais Gandin

Todavia a obra de Marx não tem como tema central a educação, não se preocupando ou destinando a aprofundar questões metodológicas ou diretrizes que elucidassem o processo educativo, no intuito ou fruto de formarem centralmente uma teoria com vistas à educação. No entanto, resultado de suas análises políticas, econômicas e sociais, nas quais foram por anos elementos de sua atenção, poderemos refletir sua proposta educacional. Porém, entender uma perspectiva marxista da educação, é antes de tudo, compreender sua concepção de sociedade, sobretudo do sistema capitalista.

Para Marx, o ser humano é um ser social, capaz de intervir na natureza conforme suas necessidades, com efeito, modifica-la. Fruto de seu trabalho, o ser humano se distingui dos demais animais pela capacidade de modificar, criar e produzir seus próprios meios de existência. Assim, “O que os indivíduos são, portanto, depende das condições materiais de sua produção”. (Marx, 1999)

No entanto na sociedade capitalista, com o advento da propriedade privada, notamos que o ser humano passa a alienar o seu trabalho aos proprietários dos meios de produção, representando assim apenas uma força de trabalho. Logo, para Marx se faz necessário uma educação que integre trabalho e ensino, “mas não o trabalho como então este estava se consolidando no século XIX, ou seja, como algo capaz de sugar as energias intelectuais e emocionais dos jovens, mas sim o trabalho como local onde linguagem, ciência, filosofia e espírito se encontram em ebulição”. (Ghiraldelli Junior, 2003)

Para tanto Marx entende a manutenção da escola como responsabilidade do Estado, não cabendo a seu encargo tutelar ou intervir sobre o processo de ensino-aprendizado – conteúdos, currículo - diante a suposição ideológica que acabaria ocorrendo caso o Estado interviesse neste processo. Portanto a escola deve ser livre, ao passo da formação das crianças e jovens. Sendo assim, Marx acreditava que os trabalhadores deveriam ter uma educação pública, gratuita e igualitária para todos os cidadãos. Possibilitando uma educação compreendedora principalmente da totalidade do processo de produção, afim de controla – lo. Então, organizou o ensino em três coisas: Educação Mental, Educação Corporal e Educação Tecnológica.


Educação Mental ou Geral, ainda que não tenhamos uma definição pelo autor, a “separação, no interior dos conteúdos, entre a instrução geral e o ensino da tecnologia não é incoerente com as teses sobre o tempo livre (..) a cultura geral era concebida por Marx nesse aspecto, separadamente da produção material, pois que era ao tempo de não-trabalho que ele imputava a possibilidade do enriquecimento cultural humano.” (Maria Alice Nogueira, 1990) Assim fica evidente o fato de que esse “elemento” da educação, faz referência a formação intelectual . Não obstante, outro alicerce fundamental no entendimento da educação para Marx era a necessidade de neutralidade no ministrar das disciplinas e em seus conteúdos, fruto talvez, de sua preocupação em ter uma escola dissociada do oportunismo e interesse da burguesia (classe dominante). Neste meio tempo, discordando de Engels, que entendia como fundamental a educação política nas escolas, Marx enxergava essa questão concernente aos jovens, mas que tal educação efetuava se “através da luta política pela transformação social, logo a formação política do trabalhador ficaria, assim, fora do campo da instituição escolar.” (Maria Alice Nogueira, 1990).

Educação Física constituiria em “exercícios ginásticos e militares”, fundamentalmente porque, ao passo que a situação da época para os trabalhadores era desgastante, fruto da pesada carga de trabalho, causando muitos problemas à saúde, a ginástica amenizaria ou contornaria a debilitação sofrida pela classe operária, possibilitando “à criança pobre reencontrar ou manter o seu vigor físico através de exercícios” (Maria Alice Nogueira, 1990). Já os exercícios militares, como parte da educação física, seria fruto da recomendação de Marx ao Congresso de Genebra, “Nós propomos o armamento universal do povo e sua completa instrução no manejo das armas” (Marx, 1976), “portanto para Marx a escola de sua época deveria poder contribuir, mediante treinamento físico dos escolares, para a formação dessas milícias populares.” (Maria Alice Nogueira, 1990). Um pensamento que estaria articulado ao projeto do proletariado em fazer a revolução socialista.

Educação Tecnológica é a principal parte da educação preconizada por Marx, isso porque pressupõe nela o conhecimento da totalidade do processo de produção pelos trabalhadores, a ponto de compreende-lo para controla-lo. Rejeitando o andamento da divisão, especializada, específica, do trabalho no mundo capitalista. A educação tecnológica enfim, tem uma característica profunda no intuito de prover o conhecimento técnico e científico para classe trabalhadora, já que a perda do conhecimento do processo de produção, logo dos meios de produção, significa estritamente a perda de poder da classe operária. Por fim essa “formação tecnológica que deve ser politécnica (ou seja, englobar o estudo teórico e prático dos principais ramos da produção), não pretende absorver a formação intelectual geral: sugere-se uma associação entre essas suas dimensões, ainda que (...), na prática, não tenho sido explicado”. (Maria Alice Nogueira, 1990).

Portanto a educação para Marx é fundamentalmente ligada ao ensejo do pensador em garantir e desenvolver a consciência de classe dos filhos dos trabalhadores, recuperando “o sentido do trabalho enquanto atividade vital em que o homem humaniza-se sempre mais ao invés de alienar-se” (Robinson dos Santos), afim de que, o ensino seja contribuinte para a transformação social. É por fim, nítido que Marx elaborou, ainda que de maneira não aprofundada, uma educação voltada à classe trabalhadora, demonstrando sua preocupação em consolidar a autonomia intelectual e a libertação dos trabalhadores das amarras da classe dominante. Alertando de maneira precisa o quanto era nocivo à articulação da burguesia na escola, defendendo uma educação “neutra”, sem interferência do Estado, assimilando a necessidade da prática na formação do proletariado, não obstante defendendo uma educação pública, igualitária e para todos, alinhando teoria e prática, ensino e trabalho.



Referências Bibliográficas:

- NOGUEIRA, Maria Alice. Educação, Saber, Produção em Marx e Engels. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1990 – (Educação contemporânea).

- CATINI, Carolina de Roig Catini. A Crítica à Educação em Marx: discussões sobre a Educação e Trabalho na teoria marxiana.
Disponível em: http://unicamp.br/cemarx/ANAIS%20IV%20COLOQUIO/comunica%E7%F5es/GT5/gt5m1c2.pdf Acesso em: 05 jun. 2010.

- SANTOS, Robinson dos. Considerações sobre a educação na perspectiva marxiana. Disponível em http://espacoacademico.com.br/044/44pc_santos.htm . Acesso em 19 jun. 2010.

- GIANCATERINO, Roberto. A influência de Marx na educação. Disponível em: http://meuartigo.brasilescola.com/educacao/a-influencia-marx-na-educacao.htm Acesso em: 21 jun. 2010.